In Nomine Preview – Um Sonho Obscuro


“Não estou chorando”, retruquei Charlie.

“Tudo bem”, ele disse, acalmando-se enquanto seus cascos voltavam a ser pés de pele rosada. “Fique aí sentado, sem chorar, enquanto eu coloco minhas entranhas onde elas deveriam estar.” Embora o anjo tenha o machucado bastante, ele aguentou como uma montanha, segurando seus intestinos no lugar enquanto usava até a última gota de essência para curar seu corpo ferido.

“Que merda”, Charlie cuspiu depois de mexer com seus intestinos por algum tempo. “Isso não esta funcionando. Olha, eu vou me esconder na minha garagem e conseguir outro corpo. Vá para lá quando puder.”

“Não, não!”, gritei balançando os braços para evitar que ele fosse embora. “Depois que se acostumar com o novo corpo venha para a minha casa. Nós ainda temos outro problema.”

“O quê?”, disse Charlie. Não foi um pedido, foi uma ordem. Eu tinha que ganhar algum tempo até pensar em alguma coisa. Charlie é durão, mas se eu contasse para ele agora sobre o esquadrão de anjos vingadores que chegaria pela manhã ele poderia lembrar subitamente de um compromisso fora da cidade e então, o que seria de mim?

“Eu te falo quando você chegar lá”, eu desabafei. Ele olhou para mim com os olhos apertados, então suspirou e concordou. Seus olhos perderam o foco antes de rolarem de volta para dentro da cabeça. Houve um estrondo conforme cento e dez quilos de carne morta caíam sobre o asfalto.

Eu enxuguei as lágrimas dos olhos e observei a cena. Nós matamos um anjo – de algum jeito! – e uma vez que as duas pessoas escondidas no carro do Querubim estavam morrendo de medo, era provável que fossem apenas humanos. Eu arrumei minha gravata e balancei a cabeça. Com humanos eu podia lidar. Era o que estava a caminho que eu não queria ficar esperando. Por toda a minha volta a sintonia retumbava como um dedo martelado devido ao caos que causamos. Meu ritmo cardíaco dobrou. Quando a Sinfonia é atingida, pode ter certeza que os dois lados estão a caminho para descobrir o que aconteceu.      A Sinfonia é como nós, celestiais – quero dizer anjos e demônios – chamamos a estrutura fundamental da realidade. E ainda que a realidade seja bem resistente de certa maneira, nós a atingimos muito forte hoje, jogando Essência para todo lado, mudando de forma o tempo todo, deixando uma trilha de evidências para que um monte de anjos pudessem nos seguir até nossa porta dos fundos. Você sabe, fizemos todo tipo de coisa que eles te dizem na escola de demônios que é ruim – não ruim do tipo “matar e trucidar,” mas ruim como “com certeza péssimo para minha causa, de modo geral, e genuinamente terrível para mim em particular.”

De forma que, a pergunta não era SE meu Príncipe percebeu a Sinfonia tremendo, senão, QUANDO ele perderia tempo para me perguntar sobre isso pessoalmente. O lado ruim de às vezes ter a atenção exclusiva de um Príncipe Demônio é que às vezes você tem a atenção exclusiva de um Príncipe Demônio. Eu tremi em silêncio, tentei acalmar meu coração e comecei a preparar minha história.

“Não foi nada de mais, Ó mais sombrios dos senhores sombrios”, tentei me imaginar dizendo enquanto as coisas ficavam mais complicadas. “As coisas acontecer mais ou menos assim . . . ”

Deixe-me ir direto ao ponto. Nada disso é culpa minha. Não sou responsável por nada disso. Eu juro por . . . Eu juro, eu não sabia o que estava acontecendo. Eu só tive um fim de tarde ruim e agora tudo foi para o inferno.

Eu estou na Terra há três anos, embora seja mais velho do que me preocupo em lembrar. E tudo se torna um borrão depois de um tempo. Mas nesses três anos eu só lidei com os demônios para os quais fui designado: Adam, Sabrina e Charlie. No começo tudo que sabia sobre eles é que, como eu, eles estavam nas boas graças de seus respectivos Príncipes. Sabemos que somos peões, então, mesmo que soubéssemos que fomos designados para trabalhar juntos, havia pouca confiança entre nós. Eles nunca me disseram para quem trabalhavam e eu nunca perguntei. Se alguém sabe seus objetivos, pode predizer sua ações. Não o tempo todo, mas o bastante para tornar sua vida deprimente.

Adam é um Balserafim, um típico psicólogo demoníaco. Balserafins são os Serafins que caíram em desgraça. Enquanto os Serafins são os detectores de mentira do Céu, Balserafins são os maiores mentirosos do inferno. Adam tenta parecer um intelectual moderno, ele quer que você pense que ele é um demônio do velho mundo em um corpo jovem. Eu sempre achei ele um idiota pretensioso com um rabo de cavalo. Em diversos momentos, Adam me deu motivos para acreditar que ele trabalhava para metade da realeza demoníaca esperando que fosse me abrir para ele. Eu nunca fiz isso.

Do outro lado da escala dos descolados está Sabrina. Ela é uma Lilim, e ela é ótima nisso. As Lilins podem fazer quase qualquer um fazer quase qualquer coisa. Eu sou a prova disso, eu acho. Eu tenho quase certeza que ela trabalha para a Princesa dos Pesadelos, Beleth, embora Lilith seja sempre uma boa segunda opção para esse tipo de demônio. Ela sempre foi uma pessoa boa para se conversar, mas eu raramente a vi longe de Adam. Adam e Sabrina tinham uma relação firme, do tipo que se mantém apenas pelo desdém mútuo pelo resto do mundo e a força universal da inércia. Para os demônios, esse é um tipo saudável de relacionamento. Certamente, era um que eu invejava. Eu sempre senti uma atração doentia por Sabrina , mesmo quando ela não estava utilizando seu charme diabólico em mim.

E também tem o Charlie. Nós trabalhamos para o mesmo Príncipe. Eu sempre posso chamá-lo para salvar o dia, e ele raramente faz perguntas. Ele vai fazer praticamente qualquer coisa desde que sirva o nosso lado, o que normalmente significa fazer com que as coisas sangrem, queimem ou virem sal. Fico feliz que Charlie esteja do meu lado, ele é bastante violento, mesmo para um Calabim.

Nós temos nossos próprios esquemas, mas ajudamos uma ao outro de vez em quando. Pode ser que existam outros demônios na cidade, mas nunca ouvimos falar deles. Ou pelo menos eu não ouvi. Eu tenho a impressão que a atitude forte e silenciosa de Charlie é apenas uma fachada, e que ele sabe muito mais do que deixa aparentar, mas ele é legal. E mesmo que eu não confesse isso, nem sob tortura, pode ser que eu confie nele um pouquinho.

Adam, Sabrina e eu nos reunimos toda quinta à noite em uma pequena cafeteria no centro e eu encontro com Charlie em sua oficina de motocicletas em domingos alternados. Pelo que sei, Charlie nunca encontrou Adam ou Sabrina fora do trabalho. Fora isso, as únicas vezes que vi um deles foi quando estávamos trabalhando juntos em algum projeto: seguindo um bom samaritano suspeito, incriminando celebridades que não seguiram nossos planos e rastreando ameaças benevolentes ocasionais, o normal.

Na verdade, houve muito pouca atividade por parte das Hostes. Às vezes sentimos o eco de algo com fedor de divindade, mas nunca conseguimos rastrear. Repetidas vezes acabamos nos animando por nenhuma razão em particular. Nada fica melhor na ficha de um demônio do que receber os créditos por descobrir uma ameaça pesada previamente desconhecida – e nós sabíamos disso. É uma boa maneira de ficar famoso. Por isso não me surpreendeu o Adam não ter falado do anjo até que seu plano explodiu na sua cara.