Um Sonho Brilhante

In Nomine Preview – Um Sonho Brilhante


Patrícia segurou o anjo em suas mãos até ele morrer.

O demônio tinha acabado de arrancar meu dedo com uma mordida, e ele ficou ali, olhando para mim com seu sorriso de “acabei de arrancar seu dedo com os dentes”, como se eu fosse um idiota ou algo assim. Mas, eu estava a uns três passos do que vocês chamariam de estado de choque, então talvez eu não fosse uma testemunha imparcial naquele momento.

Foi a primeira vez em que pensei seriamente no Significado De Tudo Isso. Eu me lembrei do que Patrícia disse ao seu anjo conforme a vida se esvaía dele.

“Esse não é você de verdade”, disse ela enquanto chorava, mais para si mesma que para ele, “este corpo é apenas uma veste. Isto é apenas uma veste.”

Este não sou eu de verdade, pensei comigo mesmo, tentando estancar o sangue de minha mão direta apertando com a esquerda. Este corpo é apenas uma veste. Este corpo apenas uma veste.

Não ajudou muito. Ter falado com anjos não fez com que eu me sentisse melhor sobre a vida.

Você provavelmente não entende muita coisa. Digo, sobre os anjos e tudo mais, não sobre física quântica e economia. Ninguém entende isso ainda, nem mesmo os anjos. Mas eu não sabia nada sobre o reino celestial até pouco tempo, então, talvez eu seja uma boa pessoa para explicar isso para vocês. Deixe-me contar sobre a primeira vez que conheci Nicole, meu anjo.

Estava eu cambaleando por uma rua vazia depois de uma bebedeira de fim de semana, quando ouvi um ruído estranho vindo de um beco. Não era um tipo de ruído específico – era mais como se eu me lembrasse de ter ouvido um barulho onde não existia nenhum. Como eu disse, era estranho. Normalmente eu continuo andando quando eu passo por um beco, não importa o que eu ouça, mas dessa vez eu fiquei curioso. Faltavam apenas algumas horas para a meia-noite do meu aniversário e eu tinha prometido para mim mesmo que me arriscaria mais neste ano. Lembro-me de pensar, “quero começar uma vida nova”. Além disso, eu estava completamente bêbado, então estava me sentindo artificialmente corajoso. Parada na metade da ruela cercada por paredes de tijolos, encostada em uma lixeira retorcida, que não parecia ter sido esvaziada há décadas, estava essa linda garota loira com um sobretudo impecavelmente limpo. Bem, ela parecia uma garota. Na verdade, ela era um anjo que por acaso tinha uma veste corpórea que se parecia com uma jovem garota humana, mas eu estou me adiantando.

Enquanto estava olhando para ela, um cara saiu correndo do outro lado do beco. Não sei se ele estava se escondendo junto ao lixo, mas antes que pudesse perceber ele estava sobre mim.

E assim, tão rápido quanto veio, ele foi arremessado para o fundo do beco por uma força invisível, a faca voou de sua mão conforme ele atingiu a parede e deslizou para o chão, caindo de cara no pavimento.

A garota gemeu e caiu de joelhos como se tivesse sido atingida no estômago, mas logo se recompôs. “Venha”, a garota disse sucintamente conforme se aproximou de mim, pausando brevemente para pegar as duas facas. “Não temos muito tempo”.

“Quem é você?”, perguntei reticente. “Foi você que derrubou aquele cara?” Ela era uma garota alta, mas parecia bem fraquinha a meu ver, não parecia alguém que poderia pegar um cara e arremessá-lo até o outro lado do beco e, com certeza, não 6 metros de distância.

“Eu sou um anjo”, ela disse. “Pode me chamar de Nicole. Eu o derrubei porque ele ia te matar para roubar os 8 dólares que você tem na carteira, sobra dos 10 que você roubou de seu chefe antes de sair para beber.” Isso me balançou.

“O que você quer?” Eu perguntei mais calmo. Eu estava um pouco bêbado, mas não ia perder a compostura na frente de uma estranha, especialmente se isso era algum tipo de esquema elaborado. “Como, como você . . .”

“Eu sou um anjo”, ela disse com naturalidade. “Vou provar para você em um segundo”. E agora ela estava muito perto, tão perto que podia sentir o seu hálito. Menta.

“E aquele traste caído ali, que está prestes a recobrar a consciência”, ela sussurrou em meu ouvido, “ele teria te matado se eu não tivesse o parado. Eu me arrisquei salvando sua vida, eu mudei seu destino. Eu tirei você da Sinfonia, pelo menos momentaneamente.”

“Do quê?” Meu mundo girou sobre o próprio eixo.

“Da Sinfonia”, ela repetiu.  Sua voz se tornou melodiosa e hipnótica. Ela se aproximou ainda mais, mas sem realmente me tocar. “É como os anjos chamam o padrão da realidade de Deus. A Terra, e tudo nela, são partes da Sinfonia. Veja bem, anjos não deveriam estar na Terra. A maioria de nós não quer estar aqui. É apenas nosso trabalho. Mas quando um ser celestial, como eu, ocupa espaço no mundo real, está trombando com todo tipo de átomo e fazendo com que eles girem para onde não deveriam ir se não estivéssemos aqui. Intervenção Celestial tira a Sinfonia do equilíbrio, gerando todo tipo de ondulações complicadas. Quanto maior a mudança, mais perceptível ela é. Outros seres celestiais podem ouvir essas ondulações. E rastrear sua fonte.”

“O que?! Onde você está tentando chegar?” Eu estremeci, percebendo que não estava mais meramente parado próximo à ela, eu estava paralisado por sua proximidade.

“Você é humano. Você pertence à Terra. Eu sou um anjo, não deveria estar aqui bagunçando ainda mais as coisas. Matar um humano é uma das mudanças mais dramáticas que qualquer um pode causar à Sinfonia. Mas você, como humano, pode fazer coisas simples que para mim são difíceis. Se você for rápido e esperto, ninguém vai saber”. Ela se afastou de mim e ofereceu as facas do assaltante. Eu as peguei.

“Não há nada que eu possa dizer para te convencer que sou um anjo”, ela disse, afastando-se lentamente, “nunca há. Mas acalme-se, esvazie sua mente e decida por si mesmo se o que estou dizendo é verdade. Aí então, vou precisar te pedir um pequeno favor.”

O corpo dela começou a se desvanecer, não em pedaços, mas em uma multidão de tiras, como página de partitura caindo da mão de um maestro. Depois que suas roupas e sua pele foram desfolhadas, sobrou apenas um brilho pálido diante de mim – mas se eu relaxasse e deixasse o brilho tomar forma própria em vez de forçar minha mente a dar-lhe uma, eu podia vislumbrar o verdadeiro Eu puro dela: pele macia e muito magra, com asas de luz e olhos cheios de força, paixão e nobreza. Ninguém podia ter olhos como aqueles, nenhum humano pelo menos. Sua boca, emoldurada de cima a baixo com lábios púrpuras perfeitos, se abriu o bastante para deixar um suave tilintar de música sair.

“Mate-o”, ela cantou, e eu o fiz…